domingo, 2 de setembro de 2012

TULIPAS VERMELHAS

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Pudessem as tulipas falar o que sinto,
Gesticularem dançando e emitindo
Odores agradáveis que remetessem
Ao início da história do meu amor por ela;

Ou ao menos a grandeza desse sentimento,
A paz de deitar em seu leito,
A alegria de todas as vezes que a encontro.

Ainda faltaria os apertos que sinto
No meu peito frágil e a saudade aflitiva
Que consome minha calma
Quando estamos longe um do outro.
                         
As pobres tulipas não conseguiriam expressar
A dor que sinto ao ver,
Dos olhos mais lindos que já vi,
Caírem lágrimas tão tenras
Que incerto e triste,
Ainda os julgo mais belos.

Apenas as tulipas saberão o quanto admiro amá-la,
O quanto amá-la eu admito.
Fiéis, não revelarão o valor desse sentimento
E sua real grandeza
Nem a fidelidade de senti-lo.
Estarão lá,
Apenas somando,
Colorindo,
Testemunhando.

Muitas flores ainda serão testemunhas.


           

           

sábado, 17 de dezembro de 2011

O que não se deve dizer
Não chegou nem a descer
Sobre a goela áspera;
Muito menos os alcoois
Serviram de lubrificante.
Justamente porque não desceu!
Não havia porque engolir,
Quando se pensa no mal
Que faz um alimento envenenado,
Enquanto já se encontra
Protegido pelos dentes.
E o cuspir é tão horrível,
E não menos danoso,
Que forçar a mandíbula fortemente
Para que se espremesse tudo junto;
Dentes na língua segurando veneno.
Quem sabe incorporaria
Às minhas glândulas
Essa minha vontade de peçonhento.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Doçura de Vida

A vida virou mais uma volta,
Uma andar abaixo,
Mas no mesmo ponto.
Aquela visão espiral descambou a pendular,
Embora eu me sinta tão apolínico.

Tomo de volta um reino
Que escapava por impulsos,
Pra não dizer vícios exagerados.
Mas já disse,
Exagerei.

Enxergo lirismo no canto das maritacas
E um desejo bem lá no fundo, mas ainda desejo
De comer melancia,
Minha grande inimiga.

O simples fato de uma novidade
Tão prosaica quanto café com pão;
E todo um entendimento de vida
Sem meus medos espectrais.

Quase tudo é novo
De chicletes a chocolates.
Existência sem estorvo,
E nossos belos debates.

Vejo agora, voltei aos vícios.
Bebi os goles amargos
Que por piores que fossem
Os sentimentos deixaram moles.

E hoje quero doces.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Descanso (estudo I)

Como os homens cansados de viver,
Ou simplesmente cansados,
Deitam-se os sentimentos
Em profundo hibernar.
A ordem se estabelece ao deitarmos,
Ao dormir
Ou morrer.
Merecemos descansar ao final de um longo dia
Ou angustiantes noites,
Insustentável existir.

Depois de longo amor
E grande odiar
Os homens hibernam exaustos
Buscando no além uma nova primavera.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Borboletas na barriga

Esse poema foi inspirado num quadro de uma amiga minha que me deixou perturbado, mas por um lado bonito. A inquietação dos homens que procuram algo sem nem saber o que. Há pistas que seguimos, rastros de algo que se esconde dentro de nós, mas não fazemos a menor idéia do que é, e procuramos, procuramos, procuramos.....

A ânsia do despertar


Fosse simples ansiedade
E estava tudo explicado.
Libertar-se de um peso,
Explorar um microcosmo bem aqui dentro;
Entender sua micro grandeza
E então dilatar os limites
Avoar torto e feioso, sem rumo.
Avoar com coragem;
Com esses membros frágeis
Delicados e coloridos;
Radiantes pétalas exploradoras
Tornam âmago em universo.

Fosse simples ansiedade,
Forçaria o tempo passar
Com as mais diversas futilidades.
Mas a angústia tem as matizes
Mais finas do que as que podemos perceber.
E dela todos temem com calafrios,
A ânsia do alívio ao voar;
O medo que intimida.
Arrepios de cócegas;
O flutuar das penas no ar.
As borboletas na barriga.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Poema de José Régio (1925)

Tomei a liberdade de pegar esse poema belíssimo.

Fado português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


José Régio

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O DEMÔNIO DA MADRUGADA



Quando lembrei que estava me perdendo,
E que me arrependeria mais tarde
De tudo o que fazia,
De até ter nascido,
Querer ter morrido,
Buscado a palavra e o olhar,
Percebi que no fundo
Estamos mais só do que imaginamos.

Salvem-se meus caros.
Arrependam-se.
Admitam o erro da existência,
A solidão coletiva,
A asnice do amor.

Já lemos sobre tudo isso.
O que nos resta agora é errar?
E de novo?