sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Descanso (estudo I)

Como os homens cansados de viver,
Ou simplesmente cansados,
Deitam-se os sentimentos
Em profundo hibernar.
A ordem se estabelece ao deitarmos,
Ao dormir
Ou morrer.
Merecemos descansar ao final de um longo dia
Ou angustiantes noites,
Insustentável existir.

Depois de longo amor
E grande odiar
Os homens hibernam exaustos
Buscando no além uma nova primavera.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Borboletas na barriga

Esse poema foi inspirado num quadro de uma amiga minha que me deixou perturbado, mas por um lado bonito. A inquietação dos homens que procuram algo sem nem saber o que. Há pistas que seguimos, rastros de algo que se esconde dentro de nós, mas não fazemos a menor idéia do que é, e procuramos, procuramos, procuramos.....

A ânsia do despertar


Fosse simples ansiedade
E estava tudo explicado.
Libertar-se de um peso,
Explorar um microcosmo bem aqui dentro;
Entender sua micro grandeza
E então dilatar os limites
Avoar torto e feioso, sem rumo.
Avoar com coragem;
Com esses membros frágeis
Delicados e coloridos;
Radiantes pétalas exploradoras
Tornam âmago em universo.

Fosse simples ansiedade,
Forçaria o tempo passar
Com as mais diversas futilidades.
Mas a angústia tem as matizes
Mais finas do que as que podemos perceber.
E dela todos temem com calafrios,
A ânsia do alívio ao voar;
O medo que intimida.
Arrepios de cócegas;
O flutuar das penas no ar.
As borboletas na barriga.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Poema de José Régio (1925)

Tomei a liberdade de pegar esse poema belíssimo.

Fado português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


José Régio

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O DEMÔNIO DA MADRUGADA



Quando lembrei que estava me perdendo,
E que me arrependeria mais tarde
De tudo o que fazia,
De até ter nascido,
Querer ter morrido,
Buscado a palavra e o olhar,
Percebi que no fundo
Estamos mais só do que imaginamos.

Salvem-se meus caros.
Arrependam-se.
Admitam o erro da existência,
A solidão coletiva,
A asnice do amor.

Já lemos sobre tudo isso.
O que nos resta agora é errar?
E de novo?

terça-feira, 8 de junho de 2010

É como disse, não vou mais escrever sobre Conformação. Não vale a pena, aliás sinto pena de mim mesmo escrevendo isso; e isso é terrível. Mas confesso que escrevi mais duas, mas não merecem um post, quem quiser que me peça o caderno para ler, e eu mostrarei na íntegra, com os erros, rabiscos e inserções tortas como todos os meus cadernos.

Esse poema que coloco agora foi uma poesia que comecei antes da morte de meu avô (27/05/2010), o interrompi por um momento e continei depois depois de sua ida. Talvez eu não tenha feito nenhum poema mais narrativo que isto....

Portugal, Moçambique e Brasil




Um ataque lacrimal me atingiu subitamente

Vendo meu velho avô agonizar,

Por um pouco de ar.

Ele inspirava aos soluços,

Era tudo o que conseguia fazer.

Agonizei junto.

Tive que sair do seu lado,

E parar de chorar.

A asma me sufocava;

Eu suportava

Por um pouco de ar.

Meus soluços eram diferentes.

Queria que tudo acabasse logo.

E pensava se iriam me indagar:

“- Porque não fez nada?”

“- Você podia tê-lo intubado!”

Arrepiei de medo e culpa,

Mas ele ainda está aqui.

Respirando, tentando...

...

(8 horas depois)

...

Quando parei este poema

Foi para socorrê-lo...

Meu medo ficou mais forte.

Ele tentava respirar e sufocava.

Eu tremia e pude sentir a Morte.

Seus soluços eram esparsos;

Os meus de desespero.

Ambos tragávamos cada vez menos.

Chamei a enfermeira:

“- Ele não tem muito tempo.”

Quando contei 20 segundos

Entre um soluço e outro,

Ele deu mais um.

E eu sabia que seria seu último.

Um arfar seco e curto.

Era o fim.

Um calafrio correu-me pela espinha

E a tristeza da perda sufocou-me.

Não pude evitar o conflito.

A supremacia inevitável da morte,

Com sua justiça impiedosa;

E meu alívio em lágrimas.

O choro triste de impotência

O fim da dor e da angústia;

Minha, mas principalmente dele.

Meu avô me avisara;

Só não queria sofrer.

...

O Hospital Universitário

Será para sempre uma incógnita.

Foi estranhamente cômico

Com seus loucos e bêbados

Esbravejando frases sem nexo

E verdades não ditas,

Ou simplesmente triste.

A angustiante convivência

Da precária situação de nossos

Humildes concidadãos

E sua cansativa busca por saúde.

Muitas noites não dormidas.

Ajudando uns, consolando outros.

...

Tentarei ficar com a lembrança do velho

Que entrou ruim e saiu melhor,

Mas deixou lembranças e saudade.

Volte bem para sua terra,

Seja ela em Portugal,

Em Moçambique

Ou Brasil;

Onde me deste colo.

E os problemas nós relevamos,

Resolvemos em vida,

Pois a morte só nos remete a coisas boas,

À momentos bons e alegres,

Apesar da perda.

Morte é certeza.

Boa ida meu bom avô.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Conformação III

Certa vez salvei uma vida.

Nunca cobrei a dádiva da segunda chance.

E, no entanto, me pergunto se preciso de uma.

Não sei se é chance ou nova existência.

O vazio me sufoca

Não perdi e nem ganhei.

Estou na mesma, porém só.

Perdi, então.

A verdade é o veneno

Da vingança do Conde de Monte Cristo.

Mata a longo prazo,

Havendo sempre um antídoto.

Eu apenas não o tenho,

Às vezes, nem sei se quero.

E naquelas horas, naqueles lugares,

Quando o vento sopra uma lembrança triste,

Quando o mar que não vejo me salga,

Sou um marco zero d’alguma cidade perdida

No meio de minha consciência sem foco.

Antídoto ou mais veneno?

O pior é que no fundo,

Não há escolhas. Apenas para os fortes.

Não é meu caso.

Pois morte não é solução.

Salve os corajosos!

Digo, não os salvem...

Deixem que seus problemas se resolvam,

Da maneira mais simples,

Da forma como querem.

Morte não é minha solução.

Não agora.

Quase num passado,

Ou no futuro.

Escolherei pela vida.

Pela minha. Como há muito não o fazia.

Nada me impedirá de respirar,

A não ser essa asma;

Não farei este sofrimento

Me apagar deste mundo.

Este é meu remédio:

Conformação.

E paro por aqui.

Conformação II

Vagueio em seus lugares

Procurando seu cheiro

Sou um cachorro sem dono.

Guio-me pelo extinto mesmo sabendo

Que nós é extinto.

Desatamos aquele nó,

Mal me restou o pó.

Me entreguei novamente

Ao passado distante

E um improvável futuro.

Mas seguirei meu rumo;

Rio abaixo; Que saudade do Rio!

Da carioca, da Conterrânea.

Encalho mais uma vez

E lá se vai uma noite de sono.

Lerei isso com rancor?

Que saudade do Rio,

O lugar comum que me esvaziava o coração.

Até o fim destas notas

Lembrarei de não escrever

A terceira Conformação.

Pois até lá estarei mais forte

Sem ela, sem ninguém.

Solidão é dois gumes de uma faca enferrujada

A liberdade e a segurança.

Ai! Que saudade do Rio.